Falamos nessa entrevista com o psicólogo do esporte Gustavo Korte*

Gustavo Korte
O que acha do mercado da psicologia esportiva no Brasil? Estamos muito longe do mercado europeu e americano?
O mercado da psicologia do esporte no Brasil ainda está em processo de maturação. Podemos até dizer que está na pré-adolescência, existe uma demanda que não é reconhecida pelos principais responsáveis: treinadores, federações e confederações esportivas. A minha leitura é que, com raras exceções, as entidades esportivas (federações e confederações) e, principalmente, os treinadores não acreditam na psicologia do esporte. O melhor, seria dizer, que não sabem o que a psicologia do esporte pode fazer para seus atletas ou seus times! Têm ainda um estigma de que os psicólogos “tratam de loucos”. O ex-treinador da seleção brasileira, o Dunga, preferia contratar um engenheiro motivador do que um psicólogo do esporte!
Um aspecto que é muito difícil de compreender é o seguinte: Os atletas ou jogadores são o maior patrimônio do clube ou das seleções do país. Os responsáveis pela gestão do clube e ou entidades esportivas ainda não tem consciência (com raras exceções) que, assim como a parte médica, a alimentação e a parte mental devem ser cuidadas de forma sistemática e planejada. Como a filosofia de vida dos brasileiros é que só se muda na hora que se tem um trauma, então teremos que esperar um pouco mais. Os 7 x 1 da Alemanha na Copa do Mundo ainda não foram suficientes. Vamos ver o que vai acontecer nas Olimpíadas.
Preciso ressaltar que nas categorias de base, em muitos clubes, existe o trabalho de psicólogos e assistentes sociais, mas é no primeiro time que mais precisam.
Nos EUA, o psicólogo faz parte da comissão técnica da maioria dos esportes. O próprio Comitê Olímpico Americano tem uma seleção de psicólogos que orienta e acompanha os atletas nas federações juntamente com os psicólogos das federações. O trabalho é planejado de acordo com o programa de competições e a carga de treinamento. Na Europa é semelhante na maioria dos esportes. No futebol, ainda se encontra muitas resistências. Existem vários clubes na Europa que possuem não só um psicólogo, mas uma equipe de psicólogos que atende o clube, desde a equipe de base até a equipe profissional, através de um trabalho de longo prazo. Exemplos: Sevilha e o Atlético de Madrid. Na China, 98% das medalhas Olímpicas Chinesas foram conquistadas pelas equipes ou atletas que tem acompanhamento psicológico esportivo. Grande coincidência, não!?
Quais as grandes dificuldades que você vê na área e o que fazer para mudar esse quadro?
Será necessário uma mudança de consciência e uma quebra de paradigma. O psicólogo do esporte não é um psicólogo clínico!!! Ele não cuida do desenvolvimento pessoal a longo prazo ou da resolução de problemas “clínicos” ou faz psicanálise com o atleta, o psicólogo do esporte tem o foco no rendimento humano e sabe que para se ter o melhor rendimento a pessoa tem que estar bem com ela mesmo e com o entorno. Trabalhamos e ensinamos técnicas e estratégias para que o atleta ou equipe consiga administrar os problemas e estar bem com eles mesmos e poder manifestar o seu máximo. Fazemos avaliações psicológicas, trabalhamos com as equipes por meio de dinâmicas de grupo ou individualmente com os atletas. Às vezes temos que fazer intervenções em 2 ou 3 minutos e devem ser eficientes e pontuais. Também podemos trabalhar como coach mental para a comissão técnica. Mas o principal é que os treinadores e gestores reconheçam a importância dos psicólogos e queiram pagar o valor justo.
No futebol ainda existe um preconceito com a profissão de psicólogo, sendo esta tratada como uma função dispensável. O que fazer para mudar esse quadro?
O psicólogo do esporte é contratado para ser mandado embora! Mudou a diretoria, mudou o treinador, mudou o dirigente da federação, adeus! Como falei anteriormente, é necessário que o psicólogo faça parte da equipe “médica” – ou melhor, de “cientistas do esporte”. No momento que fizermos parte de uma comissão permanente, será totalmente diferente para os atletas, equipes e clubes.
Até que ponto o psicólogo pode interferir na escalação de um atleta?
Ele não interfere. Ele pode identificar por meio de testes, observações ou dinâmicas de grupo que o atleta ou jogador não está bem e comunicar ao treinador ou comissão técnica. A decisão final é do treinador.
Como lidar com os diferentes perfis de liderança dos treinadores? Existe algum perfil mais fácil e mais difícil de trabalhar?
Os diferentes perfis de liderança do treinador, do gestor e dos dirigentes. Nós psicólogos devemos nos adaptar e saber lidar com todos os tipos de líderes. Os mais difíceis são aqueles que “sabem tudo”. Desde a escalação do time até como tratar ou como o psicólogo deve trabalhar com o “seu” jogador. Para mim, o mais difícil é aquele que não respeita o trabalho do profissional que foi contratado.
Qual a formação necessária para exercer essa função?
Tenho uma referência diferente da maioria dos profissionais brasileiros. Eu acho que a formação do psicólogo do esporte no Brasil é muito falha. Faltam horas de prática e supervisão do aluno. Na Europa e EUA, todos os “especialistas” devem ter horas de prática e supervisionadas. Como fiz o meu curso de especialização na Espanha, aprendi muito com os profissionais que me orientaram na supervisão. Não vejo no Brasil essa preocupação. É necessário ter uma noção do trabalho com grupos e com dinâmicas de grupo; também é importante saber e ter habilidades para aplicar testes psicológicos e fazer suas interpretações; ter conhecimentos tecnológicos com alguns equipamentos como o Biofeedback podem ser muito úteis também. Pretendo em algum momento estruturar um curso aplicado de psicologia do esporte, onde a maioria do treinamento será realizado em campo.
Você acha que as faculdades de psicologia estão prontas e preparadas para formarem novos psicólogos do esporte no Brasil?
Esse é um dos maiores problemas que temos. Imagine que devemos ter quase 300 “especialistas” de acordo com o Conselho Federal de Psicologia. Porém, para ser um especialista, a única coisa que você precisa fazer é uma prova escrita. Considerando que temos cerca de 500 faculdades de psicologia e umas 600 faculdades de educação física e temos cerca de 300 especialistas, fica impossível formarmos alunos que tenham noções reais do que é a psicologia do esporte. Sem contar que a maioria dos psicólogos que se especializam em esporte ou dão aulas nas universidades têm sua origem na psicologia clínica ou social, temos um problema ainda maior, porque não tem experiência prática em campo. Às vezes nem tem experiência em pesquisa. Então as perspectivas para que um professor de educação física, futuro treinador, saiba o que é um psicólogo do esporte será muito remota. O mesmo acontece com o futuro psicólogo que decida se optar por ser especialista no esporte, a sua referência, será cheia de falhas, porque não teve uma orientação prática.
Como é a remuneração dos profissionais, existe algum padrão, piso ou teto salarial? Os profissionais são contratados dos clubes ou são prestadores de serviço?
O Conselho Federal de Psicologia tem uma tabela de preços, mas ninguém segue a tabela. Cada um tem um preço e às vezes alguns psicólogos trabalham de graça para tentar mostrar serviço e serem contratados. Não tem padrão, piso ou teto salarial. No futebol, o preço é determinado por quem paga ou por quem indica (treinador ou dirigente). Nos clubes, nas categorias de base, alguns profissionais são contratados pela CLT e outros pela sua empresa. Todas às vezes que trabalhei para um clube de futebol, foi pela empresa.
Qual a sua visão sobre o futuro da psicologia no futebol brasileiro?
Eu sou otimista! Acredito que um dia os dirigentes dos clubes e seleções estarão considerando a presença de um psicólogo como parte da comissão de saúde (médicos, psicólogos, nutricionistas, assistentes sociais, fisiologistas etc.). É preciso que os treinadores se conscientizem ou comecem a se interessar pelo desenvolvimento e aperfeiçoamento mental dos jogadores.
Quais dicas você daria para quem quer ingressar nessa área? Existe um caminho a seguir?
Estar preparado: saber escolher, aplicar e interpretar testes psicológicos; conhecer e saber utilizar dinâmicas de grupo; saber gerenciar crises individuais e do grupo; saber lidar com personalidades fortes; saber lidar com estresse; saber lidar com frustrações; gerenciar muito bem suas finanças; ter várias fontes de renda; ter persistência, paciência, paciência e paciência e MUITA SORTE!!!
*Gustavo Korte foi psicólogo da Comissão de Arbitragem da Federação Paulista de Futebol por 6 anos; Trabalhou no Palmeiras e XV de Piracicaba como psicólogo da equipe principal; Foi psicólogo da Seleção Brasileira de Esgrima, de Remo Paraolímpico e de vários atletas de diferentes esportes; É professor convidado da UNIFESP na área de medicina do esporte e de outras faculdades no Brasil e Exterior; Consultor de empresas, palestrante, motivador e escritor; Doutorando em Psicologia pela University of Jyväskyla (Finlândia); Mestre em Pesquisa em Psicologia da Atividade Física e Saúde pela Universidade Autonoma de Barcelona (Espanha); Pós-graduado em Psicologia Aplicada ao Alto Rendimento no Esporte pela Universidade Autonoma de Barcelona (Espanha); Pós-graduado em Psicologia Aplicada ao Esporte em Idade Escolar pela Universidade Autonoma de Barcelona (Espanha); Psicólogo formado pela Pontifícia Universidade São Paulo.