ENTREVISTA ROBERTO SIVIERO – GESTÃO NO FUTEBOL

Nessa entrevista falamos com o gestor esportivo Roberto Siviero*.

.O que acha do mercado de gestão esportiva no Brasil? Estamos muito longe do mercado europeu?

Em especial no futebol, tivemos uma evolução muito grande nos últimos 10, 15 anos. Quando trabalhei na parceria Hicks-Corinthians, todos os clubes que tive contato tinham deficiências de gestão, em diversos níveis. Hoje já enxergo diversos clubes com gestão profissional, senão em todas as áreas, na maioria delas. Acho que como tivemos Jogos Pan-americanos, Copa do Mundo, Jogos Olímpicos, houve uma migração de gestores que ganharam experiência nesses eventos para os clubes, mas poderia ser ainda mais. Tivemos também uma forte influência e desejo de nos aproximarmos do que se faz no Real Madrid, Barcelona, Manchester United etc., e acho que em grande medida nos aproximamos deles, em especial na área de marketing, na questão dos programas de sócio-torcedor, mas ainda vejo dificuldades nas áreas de operação de jogos, serviços ao espectador e hospitalidade, comida e bebida em geral. Gostaria de ver avanços nessas áreas, mesmo porque o torcedor tende a ficar cada vez mais exigente. Essa área de “operações” que vejo mais distante do mercado europeu e americano.

Quais as grandes dificuldades que você vê na área e o que fazer para mudar esse quadro?

Acho que as maiores dificuldades são as mesmas de 15 anos atrás… um certo anacronismo, uma tendência de se fazer sempre o que se fez, não haver uma modernização mais forçada. Acho que a CBF está indo muito bem e incentivando bastante uma evolução, com projetos como o “Somos Futebol” e a CBF Academy. Porém ainda falta muito, por exemplo, como um profissional procura uma oportunidade no futebol? Não existem posts no LinkedIn, ou outros locais, salvo poucas exceções. Ainda é algo de conhecer alguém, de ter uma “entrada”. Ademais, seria importante modernizar os cargos e funções dos clubes, faltam cargos/estrutura para realizar projetos e ser melhor capaz de lidar com as várias demandas de serviços. Gostaria de ver principalmente mais vontade e uma melhor estrutura para a contratação de profissionais.

Quais as principais práticas de governança corporativa que você viu e vivenciou no esporte brasileiro?

Quando falamos de clubes, a governança é diferente em função de termos uma estrutura societária tradicional, em que se acaba tendo muita contaminação da política do clube na gestão do futebol e outras modalidades. Esse tipo de situação é difícil de mudar, já que seria necessária uma completa mudança dos estatutos do clube, separação do futebol em uma espécie de unidade de negócio/performance se reportando a um conselho, algo nessa linha. Já foi tentado a questão do clube-empresa, com poucos casos de sucesso e, em geral, limitado a equipes menores e sem representatividade de torcida.

Já quando participei dos grandes eventos esportivos que tivemos, os Jogos Pan-americanos, Copa do Mundo 2014 e Jogos Olímpicos Rio 2016, as estruturas de governança eram muito mais claras e eficientes, obviamente por que foram construídas a partir do “zero” e com ideias mais modernas. Os Comitês têm áreas funcionais e gerentes capazes para entregar uma grande gama de serviços além da própria competição em si, algo entre 35 a 70 departamentos diferentes. Com organizações tão grandes, a falta de agilidade na gestão acaba sendo muito prejudicial. Em geral, acho que se tem que obter um equilíbrio na questão da gestão transparente e participativa, sem ficar tanto no “presidencialismo”, onde somente uma pessoa acaba tomando a maior parte das decisões, nem no lado da “morte por comitê”, em que qualquer decisão fica fadada a colegiados que atrasam o andamento da organização e acabam por contaminar as decisões com problemas políticos. No futebol tendemos mais a primeira hipótese, nas confederações idem. Já no caso dos Jogos Olímpicos a gestão foi por demais pulverizada e perdeu-se a agilidade.

Qual a formação necessária para exercer essa função?

Acho que a formação universitária é essencial, de preferência em áreas próximas e afins para aquilo que se vá realizar, combinado com experiência profissional, não necessariamente totalmente específica. Ou seja, um conceito totalmente novo! Brincadeiras à parte, não acho que seja necessária uma formação específica, conheci muitos bons gestores que não eram administradores de empresa, por exemplo, mas tinham outra formação universitária juntamente com a experiência profissional. Porém existe uma tendência de que não é necessário conhecer “Esporte”, o que sou totalmente contra. Inúmeros casos vi de más decisões, pois não havia uma compreensão do que é o fenômeno cultural “Esporte” e como ele funciona na nossa sociedade.

Você acha que as faculdades e cursos de gestão estão prontos ou preparados para formarem novos gestores no Brasil? O mercado está pronto para aceitar esses profissionais vindos das faculdades?

Tenho encontrado ao longo dos anos diversos profissionais oriundos de faculdades, acho que a vontade de contar com esse profissional, principalmente os formados em gestão esportiva, que geralmente são cursos de extensão, já é bem maior do que antes, nos clubes e organizações esportivas. Nas áreas corporativas não há problemas, profissionais das faculdades sempre fizeram parte dos quadros; mas existe um pouco de resistência ao gestor esportivo sim. Em secretarias e órgãos públicos é bastante raro, sem dúvida o acesso poderia ser maior.

Você acha que a experiência dentro de campo de um ex-atleta profissional é suficiente para assumir um cargo na gerência de um clube de futebol?

Acho que depende do cargo e funções e da pessoa, logicamente. Passa por aquilo que comentei antes, o fato que em geral as estruturas organizacionais não são abrangentes o suficiente para lidar com tudo que é necessário, aí fica complicado pela gama de questões que o cargo tem que enfrentar. Portanto, via de regra, é difícil para um atleta de futebol ter se preparado durante sua carreira ou mesmo em poucos anos após ela para as demandas necessárias, mesmo porque, infelizmente, a maneira como os clubes usam os atletas adolescentes, elimina a oportunidade de muitos completarem mesmo o ensino médio, inclusive prejudicando os que não se profissionalizam, pois perdem o acesso ao ensino superior. Por outro lado, temos casos de sucesso, afinal a experiência do atleta em relação ao que acontece fora de campo é muito valiosa, se ele prestar atenção e tiver interesse. Temos o Edu Gaspar na CBF que tem suas deficiências, como ele mesmo declara, mas também as virtudes de ter buscado uma formação ou mesmo estágios nos clubes mais desenvolvidos para se qualificar. Tivemos o Ronaldo e o Bebeto na nossa gestão da Copa do Mundo, e eles traziam boas opiniões e observações. Mais uma vez, deveria ser uma mescla, afinal é raro o gestor esportivo que tem acesso aos departamentos de futebol nos seus primeiros anos profissionais. Numa proposta mais moderna, assim como se tem as categorias de base, com mais cargos seria possível desenvolver novos gestores que poderiam assumir funções com maior responsabilidade mais à frente.

Qual a sua visão sobre o futuro da gestão no futebol brasileiro?

Pelo que tenho visto, evoluímos desde o fim das parcerias que ocorreram em função da Lei Pelé, quase 20 anos atrás. Acho que teria sido mais rápido caso aquele modelo tivesse continuado, porém não ficou estagnado. As áreas de marketing se fortaleceram bastante, os programas de sócio-torcedor são uma realidade e importantes fontes de receita para os clubes. Não sei se as estruturas societárias permitirão maior evolução, em especial na área de operações, que ainda é vista com desprezo. Há uma tendência de terceirização exagerada na minha opinião, perde-se a proximidade e essência. Para mim seria importante que as estruturas organizacionais se modernizassem, que os clubes mais tradicionais conseguissem de alguma maneira se libertar da questão do sócio/conselheiro/diretoria/presidente, que é anacrônica em termos corporativos, acaba contaminando as decisões de negócio. Mas não vejo com pessimismo exagerado, porém gostaria que fosse mais rápida a evolução organizacional, para que mais profissionais formados pudessem participar, o que por si só ajudaria a acelerar a evolução.

Quais dicas você daria para quem quer ingressar nessa área? Existe um caminho a seguir?

Sem dúvida existe. Primeiro vontade e paixão. Esporte exige, não é algo fácil, tem que acreditar. Depois formação, de preferência específica. Para gestão, administração, seja ela esportiva ou clássica. Os cursos de extensão são importantes para se ter uma visão mais intensa de como o mercado realmente funciona, especialmente se não haver uma grande compreensão da área. Estágios são preponderantes para esse mesmo fim, ver como funciona, ver o que pode ser melhorado. Algumas funções que exerci comecei trabalhando sem remuneração, apenas para “por o pé na porta”, se existir essa possibilidade, é uma ótima maneira de demostrar valor na prática. Por fim, perseverança e proatividade, como disse antes não se tem vagas nos “classificados”, correr atrás das oportunidades é fundamental. Boa sorte!

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*Roberto Siviero é gestor esportivo. Bacharel em Esporte pela Escola de Educação Física e Esporte da USP; Mestre em Administração Esportiva pelo Canisius College (EUA); Gerente de Operações de Estádio do SC Corinthians/Hicks Muse, 1999-2002; Gerente Geral de Operações do Comitê Pan Rio 2007, 2004-2007; Gerente de Operações do Comitê Organizador Jogos Olímpicos Londres 2012, 2009-2010; Gerente Geral de Estádios do Comitê Organizador Local da Copa do Mundo FIFA Brasil 2014, 2010-2014; Gerente Geral de Competições do Comitê Organizador Jogos Olímpicos Rio 2016; 2014-2016.

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